Capela dos ossos faro

Iremos falar sobre Largo da Sé, mais concretamente da Igreja da Sé, do Paço Episcopal, do Seminário e da Estátua do Bispo D. Francisco Gomes de Avelar:

Cidade de Faro
▪ Largo da Sé

LARGO DA SÉ

Através dos vestígios arqueológicos encontrados no Largo da Sé (figuras 1, 2 e 3), podemos afirmar que aqui se encontrava o fórum de Ossónoba, por volta do século VIII a.C., onde se trocavam produtos agrícolas, pescado e minérios. Este foi também o principal centro romano no sul de Portugal, tendo o nome Ossónoba prevalecido no início da ocupação árabe.

Figura 1 – Largo da Sé

Figura 2 – Largo da Sé

Figura 3 – Largo da Sé

A actual configuração do largo já existe desde o século XVIII, quando o Bispo D. Frei Lourenço de Santa Maria comprou muitas casas que o ocupavam e as demoliu para tornar o largo mais amplo.

IGREJA DA SÉ

A Igreja Matriz de Santa Maria (figuras 4, 5, 6 e 7), romano-gótica, mais conhecida por Igreja da Sé, situada na Vila-Adentro no Largo da Sé, foi mandada construir em 1251, pelo Arcebispo de Braga, D. João Viegas, após a reconquista cristã por D. Afonso III. Pensa-se que neste mesmo local existiu um templo romano, adaptado a igreja no período visigótico (Catedral de Ossónoba) e que posteriormente, no período árabe, foi ali construída uma mesquita, provisoriamente adaptada a igreja após a reconquista cristã.

Figura 4 – Gravura da Sé de Faro, anterior às obras de desaterro do pavimento do Largo da Sé.

Figura 5 – Exterior da Igreja Matriz de Santa Maria.

Figura 6 – Exterior da Igreja Matriz de Santa Maria

Figura 7 – planta de localização.

A estrutura deste templo devia ser constituída por: três naves, as duas laterais mais baixas e a central mais alta, uma ábside e dois absidiolos, transepto, torre lanterna, torre-fachada, portas laterais (substituídas no século XVII) e coberturas das naves em telhados (figuras 8 e 9).

Figura 8 – Planta do piso térreo da Igreja.


Figura 9 – Interior da Igreja

Em 1577 passou a designar-se Sé Catedral quando se tornou sede do assento episcopal, tendo o Bispo e o Cabido transitado de Silves para Faro.
Em 1596 a cidade de Faro foi saqueada pelas tropas inglesas do Conde de Essex, tendo esta igreja sido incendiada e pilhada. Os telhados foram destruídos e as estruturas das naves ficaram abaladas. No entanto conseguiu-se aproveitar parte do templo. Reconstruíram-se, a separar as naves, colunas que anteriormente eram de arcos de pedraria de ponto (ogivais) e passaram então a ser de ordem dórica (figura 10), com arcos de volta perfeita e mantiveram-se várias capelas que foram remodeladas nos séculos XVII e XVIII.

Figura 10 – Coluna dórica

Reconstruíram-se igualmente as três naves, sendo de realçar que as igrejas construídas nesta época já apresentavam uma só nave.
Os terramotos de 1722 e de 1755 levaram a novas obras.
É de salientar os materiais e as técnicas utilizadas no interior da igreja, entre elas: talha e estuques dourados, mármores embutidos, azulejaria, pintura figurativa a óleo e embrechados, entre outros (figuras 11e 12).

Figura 11 – Altar mor decorado com talha dourada, pintura a óleo, mármore, azulejos, entre outros.

Figura 12 – Altar mor decorado com talha dourada, pintura a óleo, mármore, azulejos, entre outros.

Também no interior podemos encontrar, junto ao coro alto, um órgão de origem barroca, executado no segundo quartel do século XVIII (figura 13).

Figura 13 – Altar mor decorado com talha dourada, pintura a óleo, mármore, azulejos, entre outros.

Existem oito capelas, construídas em diferentes períodos: Capela-Mor , Capela do Santíssimo, Capela das Almas, Capela de Nossa Senhora do Rosário, Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, Capela de Santo Lenho e Capela de S. Francisco de Paula. A Igreja da Sé possui as seguintes dimensões: comprimento – 25,20m; largura – 20,80m; altura da nave central – 13,80m; altura das naves laterais – 10,60m. O exterior da Igreja da Sé possui características romano-góticas e o seu interior apresenta características renascentistas e uma decoração em estilo barroco.
No quintal situado a sul da Igreja da Sé (figura 14) podemos observar uma capela de ossos (figura 15), onde se encontram pedras tumulares de vários cónegos, uma capela mortuária dedicada ao Arcanjo S. Miguel e um claustro inacabado construído em 1697 (figura 16). É ainda de realçar o exterior de uma capela medieval da antiga Igreja de Santa Maria.

Figura 14 – quintal situado a sul da Igreja da Sé.

Figura 15 – capela dos ossos.

Figura 16 – Claustros.

O PAÇO EPISCOPAL

Com a transferência da sede do assento episcopal de Silves para Faro, entre 1581 e 1585, o Bispo D. Afonso de Castelo Branco foi o primeiro prelado a residir nesta cidade, mais concretamente nas casas pontificais situadas na Vila-Adentro, que já não existem. O Paço Episcopal (figuras 17,18,19 e 20) foi criado entre 1594 e 1616 pelo Bispo D. Fernando Mascarenhas. Ocupa todo o quarteirão e a fachada principal situa-se no Largo da Sé.

Figura 17 – Paço Episcopal antigamente.

Figura 18 – Paço Episcopal antigamente.

Figura 19 – Paço Episcopal antigamente.

Figura 20 – Paço Episcopal actual.

Possui dois pisos e sete telhados de tesoura, sendo a sua composição simétrica. Entre 1704 e 1715 o Bispo D. António Pereira da Silva mandou construir uma Biblioteca numa das salas do Paço Episcopal, cujas paredes foram revestidas de estantes de madeira, onde figura o seu brasão.
O grande terramoto de 1755 provocou alguns danos que foram reparados pelo Bispo D. Frei Lourenço de Santa Maria, tendo havido uma remodelação no eixo da fachada principal e os primeiros vãos foram substituídos pelos actuais. Deve-se também a ele o revestimento a azulejos do vestíbulo, da escadaria e ainda das três salas de aparato, que constituem a mais significativa manifestação da azulejaria “Rocaille” no Algarve.
A 3 de Julho de 1913 o Paço foi ocupado pelas forças da República e afectado aos serviços da Marinha, tendo estado lá instalado o Museu da Marinha. A 8 de Fevereiro de 1962 o edifício foi devolvido à diocese e em 1965 foi restaurado por D. Frei Francisco Rendeiro. Actualmente as suas instalações continuam a ser uma residência episcopal.
No interior do Paço Episcopal podemos observar importante azulejaria. À entrada deparamo-nos com o átrio cujas paredes estão revestidas de painéis de azulejos do século XVIII (figura 21).

Figura 21 - Painel de Azulejos, junto ao vestíbulo de entrada.

Também as três salas do andar nobre estão decoradas com painéis de azulejos do período rococó, com grande riqueza cromática. No átrio e na escadaria existem igualmente azulejos rococós (figura 22).

Figura 22 – Escada de acesso ao piso superior.

Convém ainda destacar a existência de alguns retratos de prelados que exerceram funções nesta diocese, tal como o retrato de D. Frei Lourenço de Santa Maria, e de pinturas de Marcel Leopardi. É importante referir igualmente que a antecâmara que dá acesso às salas de aparato do andar nobre é constituída por oito colunas de calcário de ordem dórica que servem de suporte a seis arcos abatidos estruturados em três tramos, conduzindo o principal à escadaria (figura 23).

Figura 23 - vestíbulo de entrada.

O SEMINÁRIO EPISCOPAL

O Seminário Episcopal (figuras 24 e 25) situa-se no Largo da Sé e foi mandado construir após a extinção dos jesuítas e do encerramento do seu colégio em Faro, nos finais do século XVIII.

Figura 24 - planta do Seminário Episcopal

Figura 25 - Seminário Episcopal

Este edifício era destinado à formação do clero regular e na sua construção aproveitaram-se as antigas casas pontificais. A sua edificação teve duas fases: a primeira, a norte, que faz ligação com o Paço Episcopal através de um passadiço assente sobre um arco que atravessa a rua (figura 26), realizada entre 1787 e 1789 por D. José Maria de Melo; a segunda, a sul, por ordem do Bispo D. Francisco Gomes do Avelar, a partir de 1789, executada pelo arquitecto italiano Francisco Xavier Fabri.

Figura 26 – passagem para um dos pátios interiores.

Na altura da sua construção as dificuldades económicas levaram a incluir no seminário as aulas públicas de Letras que eram leccionadas na cidade. Em 1834, com a implantação do liberalismo, os cursos eclesiásticos foram interrompidos mas as aulas públicas continuaram a funcionar, tendo sido transformadas no Liceu Nacional, em 1848. No entanto, em 1853, após o restabelecimento das relações diplomáticas do governo português com a Santa Sé, o ensino religioso no Seminário voltou a existir. Em 1906 procedeu-se à transferência do Liceu para o edifício construído junto à Alameda. Após a implantação da República, o Seminário foi confiscado e nele se instalou o Regimento de Infantaria 33. Em 1933 parte do Seminário foi devolvido à diocese, tendo esta ficado com a totalidade do mesmo só em 1940. Após o 25 de Abril de 1974 acolheu temporariamente retornados das ex-colónias, uma vez que não possuía seminaristas. Em 1986, o Seminário recomeçou a formação de futuros sacerdotes, tal como acontece actualmente.

A ESTÁTUA DE D. FRANCISCO GOMES

No Largo da Sé podemos observar a estátua do Bispo D. Francisco Gomes (figuras 27,28 e 29), da autoria de Raul Xavier, inaugurada em 1940.

Figura 27 – estátua do Bispo D. Francisco Gomes.

Figura 28 – estátua do Bispo D. Francisco Gomes.

Figura 29 – vista da estátua do Bispo D. Francisco Gomes no Largo da Sé.

D. Francisco Gomes do Avelar nasceu em Matto, Termo de Alverca, em 1739. Em 1789 foi nomeado Bispo do Algarve e a ele são atribuídos alguns milagres. A ele se deve o Largo da Sé que hoje conhecemos. Promoveu a recuperação de antigos templos do Algarve e também a compra de várias obras de arte, nomeadamente pinturas de alguns importantes pintores italianos assim como de portugueses que trabalhavam em Itália, sendo de destacar “O Menino entre os Doutores” de Marcel Leopardi e os “Doutores da Igreja”, conjunto de quatro telas da autoria do pintor português Vieira Portuense.

Bibliografia:
- FARO, OSSÓNOBA, EVOLUÇÃO URBANA E PATRIMÓNIO; Rui M. Paula e Frederico Paula; Câmara Municipal de Faro; Novembro 1993, Faro.
- MONUMENTOS E EDIFICIOS NOTÁVEIS DO CONSELHO DE FARO; Professor José António Pinheiro e Rosa; Câmara Municipal de Faro; Dezembro 1984, Faro.
- GUIA DO VISITANTE DAS IGREJAS DE FARO; Álvaro de Valadares; Tipografia de “O ALGARVE”; 1949, Faro.
- FARO, EDIFICAÇÕES NOTAVEIS, Gabinete de Gestão e Reabilitação do Património Histórico; Camara Municipal de Faro.
- FARO, EDIFICAÇÕES NOTAVEIS; Francisco I. C. Lameira; Câmara Municipal de Faro; 1995, Faro.
- ROTEIRO DO CENTRO HISTÓRICO DE FARO; Francisco Ildefonso Lameira; Região de Turismo do Algarve; Junho 1997, Faro.
- A CATEDRAL ROMANA DE OSSÓNOBA; Padre José Cabrita; 1985, Faro.
- HISTÓRIA BREVE DO SEMINÁRIO EPISCOPAL DE SÃO JOSÉ DE FARO; Padre José Cabrita; Seminário; 1985, Faro.
- A ARQUITECTURA RELIGIOSA DO ALGARVE DE 1520 A 1600; José E. Horta Correia; Publicações Ciência e Vida, lda.; Abril 1987, Faro.

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